“à beça” – No Rio imperial, havia um comerciante rico chamado Abessa, que adorava ostentar roupas de luxo. Quando alguém aparecia fazendo o mesmo, dizia-se que ele estava se vestindo à Abessa, ou seja, como o comerciante. Virou sinônimo de abundância, exagero.
[Outra versão: a origem dessa expressão, que significa "em grande quantidade", é atribuída à grande profusão de argumentos utilizados pelo jurista sergipano Gumersindo Bessa (1849-1923) ao enfrentar Rui Barbosa em famosa disputa pela independência do território do Acre, que seria incorporado ao Amazonas. Quem primeiro utilizou a expressão foi Rodrigues Alves (1848-1919), presidente do Brasil de 1902 a 1906, admirado da eloqüência de um cidadão ao expor suas idéias: "O senhor tem argumentos à bessa." Com o tempo, o sobrenome famoso perdeu a inicial maiúscula e os dois esses foram substituídos pela letra c com cedilha (ç).]
“santo do pau oco” – A Coroa Portuguesa costumava cobrar imposto altíssimo sobre as pedras preciosas e o ouro. Quem não queria pagar colocava as peças dentro de imagens de santos e assim passava pelas vistorias que havia nas estradas.
“para inglês ver” – Em 1830, pressionado pela Inglaterra, o Brasil começou a aprovar leis contra o tráfico de escravos. Mas todos sabiam que elas não seriam cumpridas. Falava-se, então, que as leis eram apenas para inglês ver.
“a vaca foi para o brejo” - Quando a seca é mais violenta, os animais começam a procurar os brejos, regiões que permanecem alagadas por mais tempo. É sinal de que a situação piorou.
“farinha pouca, meu pirão primeiro” – A farinha de mandioca era um dos alimentos que os bandeirantes costumavam levar durante suas viagens pelo interior do Brasil. Quando o estoque de comida estava acabando, o prato principal era peixe com pirão. Nesse momento, o chefe da expedição usava a força do cargo.
“sem eira nem beira” – As casas portuguesas de classe média tinham uma pequena marquise para proteção contra a chuva (eira). As mais ricas, além de eira, tinham beira (desenhos arquitetônicos sobre as eiras). Não ter nenhuma das duas era sinal de pobreza.
“hora de a onça beber água” – o animal costuma fazer isso ao anoitecer, e, segundo a tradição indígena, esse é o melhor momento para abatê-lo.
“É A OVELHA NEGRA DA FAMÍLIA” – a história dessa frase nasceu do milenar trabalho de pastoreio. Em todo o rebanho há um animal de trato difícil, que não acompanha os outros. Cuidando das ovelhas, protegendo-as dos lobos, providenciando-lhes os melhores pastos, o pastor não evita, porém, que uma delas se desgarre. É a “ovelha negra”. Por metáfora, a frase passou a ser aplicada nas famílias e em outras comunidades, a filhos ou a afiliados que não têm bom comportamento. Na “Ilíada”, de Homero (século IX a. C.) relata o sacrifício de uma ovelha negra como garantia do pacto celebrado entre Páris e Menelau, que resultou na guerra de Tróia. Mas ela não foi punida por mau comportamento. Como muitas ovelhas negras, era inocente.
Macunaíma, livro-ícone do Modernismo no Brasil, nunca foi lido amplamente quando lançado. Ouvira eu dizer há anos que o livro circulara restritamente no meio intelectual, com uma tiragem de 800 exemplares. Guardei esse número na memória, em algum lugar.
Outro dia me deparei com ele na biblioteca. Era verdade, dizia-me a capa: Macunaíma, São Paulo, 1928.
Na última folha, a tiragem que eu guardara na memória.
Hoje, o livro, apesar de ainda ser difícil, é obrigatória entre alunos de literatura brasileira.
Taí a relíquia.
"The crowd was the veil from behind which the the familiar city as phantasmagoria beckoned to the flâneur. In it, the city was now landscape, now a room. And both of these went into the construction of the department store, which made use of flânerie itself in order to sell goods. The department store was the flâneur's final coup. As flâneurs, the intelligensia came into the market place. As they thought, to observe it - but in reality it was already to find a buyer. In this intermediary stage...they took the form of the bohème;. To the uncertainty of their economic position corresponded the uncertainty of their political function." W. Benjamin, 1935
“A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal.
Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.
Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa.
Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.
Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem na diversidade do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado, isto é, o houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido. Não creio que a história seja mais, em seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos.
O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo.
Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.”
Bernardo Soares/Fernando Pessoa in “Livro do Desassossego”
O exílio voluntário pode ser também um ajuste no foco, só para que o par estranhar-avaliar tenha um sentido poliglota.
O Rio é uma síntese, não um aglomerado. Foi assim sobretudo nos séculos XIX e XX, e continua sendo. Os filhos de qualquer imigrante já nascem carioquíssimos, impregnados da sabedoria da praia, do papo-furado na esquina e do chope com tira-gosto no botequim. À medida que as gerações se sucedem, a memória de seus bisavós estrangeiros vai adquirindo a consistência de um ectoplasma e sendo substituída pela de seus avós ou pais cariocas. Isso acontece inclusive com os judeus, entre os quais estão ainda hoje alguns dos maiores estudiosos da história do Rio.
No Centro antigo da cidade, há uma região chamada Saara. Nada a ver com caravanas de camelos, oásis com palmeiras ou guerras de cimitarras - na verdade, o nome é uma sigla comercial, SAARA, significando Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega. Compreende um emaranhado de onze ruas, com cerca de 1500 pequenos estabelecimentos: restaurantes, lojas de tecidos, joalherias, empórios de temperos e bazares de quinquilharias. É um dos poucos lugares do Rio onde se pode dizer que predominam certas etnias. No caso, essa é a zona dos comerciantes árabes e judeus. Como tal, já existia há muito, mas só foi institucionalizada em 1962, quatorze anos depois da criação do Estado de Israel. Ou seja, enquanto no Oriente Médio se dava a traumática divisão da Palestina com os resultados conhecidos, seus primos cariocas se declararam amigos e se uniram para comerciar. Já se passaram décadas e, lá fora, não muito longe do verdadeiro Saara, eles continuam jogando mísseis e carros-bomba uns nos outros. No Saara do Rio, árabes e judeus contam piadas às portas das lojinhas, dividem quibes e esfihas no almoço e, em época de Carnaval ou de Copa do Mundo, unem-se mais ainda na venda de plumas e paetês para as fantasias ou de camisas da Seleção Brasileira. Nem é mais correto chamá-los de árabes e judeus. São apenas cariocas, assim como o serão brevemente os coreanos que passaram a disputar com eles o comércio da região.
Esse é um fenômeno do Rio - não sei se de todo o Brasil.
Contudo, como quase tudo, a segunda vez pode não ser sinônimo da primeira. Pode ser melhor. É esse otimismo da revisitação que é reler Cardoso Pires em Lisboa.
A última Vista da Cidade será uma cortina de gaivotas enfurecidas a levantarem-se entre mim e o Tejo. Na altura estarei, ou estou ainda, sentado num café-snack do Terreiro do Paço junto ao cais dos cacilheiros, com larga vidraça a separar-me do rio. Café Atinel, que nome mais estúpido. Olho as mesas vazias e pergunto-me por que razão é que um sítio assim, tão privilegiado, consegue estar desconhecido. Por mim não quero outra coisa: barcos que chegam, barcos que partem, gente de entrar e sair a servir-se ao balcão, e eu sentado em cima do Tejo.
Tal como estou tenho a cidade pelas costas. Comércio, multidão, Europa, fica tudo para trás. Lá as pessoas andam todas a perguntar as horas umas às outras, enquanto que neste reduto para aqui esquecido sabe-se do correr do dia pelo mudar da cor do Tejo, e não me digam que não é uma felicidade estar-se assim, à mesa sobre as águas, com gaivotas a saírem-nos de baixo dos pés e a passarem-nos a dois palmos dos olhos num bailado de gritaria.
[...] O Tejo não é de fábula nem de poema e corre sem nostalgias. E Lisboa a mesma coisa, disso podemos estar nós bem seguros. Só que, com o saber dos séculos e os sinais de muito mundo que a perfazem, sugere várias leituras, e daí que a cada visitante sua Lisboa, como tantas vezes se ouve dizer.
Daí também que nós, os que somos dela, lhe estejamos tão errantes na paixão. Um dia pode acontecer que, sentados como agora sobre o rio, a tentemos ler pela voz dos outros e então ainda nos sentiremos mais errantes, mais incertos. Entre uma Lisboa de Tirso de Molina, saudada como "a oitava maravilha", e a Lisboa que Fielding, o genial, amaldiçoou como um pesadelo leproso, correm águas insondáveis. Beckford viveu-a em palácio, Sade inventou-a num cárcere de rancores. "Lisboa oferece uma apreciável variedade de escolhas para um nobre suicídio", escreveu um dos grandes narradores dela, Antonio Tabucchi. Vozes, tudo vozes. Olhares. Memorações.
Quando por fim fechamos a página onde líamos a cidade, descobrimos que a vidraça do café está toldada por uma dança de gaivotas em turbilhão e que não há Tejo. Que desapareceu por trás duma desordem de asas e já não é prenúncio de oceano.
Então, ternamente, confiadamente, reconhecemo-nos ainda mais ancorados à cidade que nos viu partir.
JCP. Lisboa, livro de bordo.
Cuidado! Ao pisar fora do monoteísmo, trôpego em meio àquilo que sustenta teus axiomas, podes enveredar por caminhos desconhecidos. Referir-se aos andaimes sob o ponto de vista do rés do chão não é o mesmo que estar suspenso no alto do edifício onde os pensamentos se controem.
A visão do vizinho vê o vão que vai do vácuo ao vento.
E mesmo barrado na porta Apolo enviou oficiais à paisana. A beleza finalmente triunfava em seu estado de torpor alegre que só o carnaval congrega.
Baco veio à caráter, como manda o figurino desde os áureos tempos helênicos. E como adora carnavalizar, trazia estampado em seu peito uma camiseta com os dizeres "Nietzsche is god". A fina ironia sem pudor que só o estado dionisíaco emana.
Momo, por sua vez, vestiu-se de perfume de pequeno frasco, carnavalizando o próprio excesso, essência de sua existência. E foi só os acordes maiores do primeiro samba soarem que, como próprio de sua fantasia, Momo espalhou-se pelo ar, enebriando o ambiente de um excesso cheiroso, como o cangote feminino em uma umbigada.
Apesar do jet lag e do grande esforço de adaptação nessas terras frias de olhares em busca do exótico, o trio Momo, Baco e eu dançou, fez dançar, beijou e fez beijar, ganhou e fez ganhar, bebeu e fez beber, feliz ficou e só por esse estado de alegria já contagiou e fez outros felizes ficarem.
Com a sabedoria da miudeza, da adaptação, do "se vira nos 30", a festa tomou ares de bailes carnavalescos de salão, com toda a magia que há tempos não se via. Uma escola de samba, salvadora e solar, brindou-nos com os sons da bateria.
Nos primeiros toques do repique, eu já tirava a surdina das platinelas do pandeiro, deixava a saudade de lado e dava um aperto de vontade no meu tamborim, molhava o couro da cuíca com o meu suor, dava um breve tempo de espera para a marcação e cantava a minha vida no salão com empolgação: vai manter a tradição, vai meu bloco de exílio cantar a paixão!
Meus amigos se foram logo que os primeiros raios de luz surgiram. Meu sábado virou cinzas, mas meu coração ainda ouve ecos do ronca-ronca da cuíca.
Sente-se leve e feliz sem a proteção pesada de Octavio de Faria, mas ainda não consegue manejar a vida com desembaraço. Para complicar as coisas, Vinicius recebe a primeira bolsa do Conselho Britânico dada a um brasileiro para estudar língua e literatura inglesa no Magdalen College, da Universidade de Oxford. Um presente, mas também um problema a mais. Logo chega o momento da partida para a Inglaterra. Tati não pode acompanhá-lo de imediato, pois precisa, primeiro, desmanchar em definitivo o noivado e, depois, se acertar com a família. O poeta viaja em agosto, a boro do Highland Patriot, numa travessia lenta que lhe inspira poemas como “A estrelinha polar". Deixa, a contragosto, a bela Tati para trás. Os dois se casam por procuraçao e às escondidas, já que o Magdalen College, uma instituição erguida sobre o severo espírito inglês, só distribui bolsas para homens solteiros. A instituição, no mais rígido espírito machista, não gosta de mulheres atrapalhando.
O poeta passa momentos de difícil solidão. Vive com uma bolsa, bastante razoável, de mil libras, mas tem um tutor inflexível a quem deve apresentar, semanalmente, um ensaio literário. Algumas vezes, sufocado, sente-se não numa universidade de letras, mas num quartel literário em que Keats, Shelley, Eliot têm seus retratos dependurados nas paredes, ameaçadores como generais. Um de seus raros amigos é o inglês Reginald Maudling, quatro anos mais moço que ele, que também estuda em Oxford. Um rapaz aplicado, que trinta anos depois chegará ao posto de ministro de Estado.
No Natal de 1938, está sozinho em Paris. Sem alternativas, resolve atravessar a noite bebendo num bar de Montparnasse. Senta-se ao balcão, ao lado de um marinheiro também afundado na solidão e no álcool. Perde-se em divagações melancólicas. De repente, o imenso marujo se ergue da cadeira, joga a cabeça para trás e, num só golpe, engole todo o conteúdo de seu copo. Sai cambaleando, sem dar tempo aos outros homens, que como Vinicius ali destilam seu amargo Natal, de comprender o que se passa. Só o alcançam já do lado de fora do bar, caído em meio ao frio, o rosto voltado para o céu e os punhos fechados. Está morto. Vinicius, transtornado, deixa bar em disparada - como se tentasse escapar do fantasma do marinheiro. Atravessa Montparnasse como um fugitivo, até que passa a ouvir, em tom rascante, o riso quase histérico de uma mulher.
O drama se transforma, subitamente, em jogo. O riso muda de direção, ora mais baixo, ora mais agudo. Parece se esconder dele, como um animal tentando se livrar da fúria de seu caçador. Por fim, o poeta depara com estanha mulher loura, vestida de preto da cabeça aos pés. Ela está 'embriagada e ri convulsivamente. Ao seu lado, oferecendo-se como um objeto, uma anã que lhe serve de muleta. Vinicius, num ímpeto, se abraça à dama de negro. Ela declara o seu nome, Carmaine, e os dois – enlaçados sabe-se por que forças - começam a chorar. Por fim, a mulher o larga e desaparece na noite.
O poeta relatará essa história aos amigos, anos mais tarde, como um emblema de sua aventura européia. Depois de uma juventude superprotegida por mestres categóricos e companheiros fiéis, Vinicius, como que num execício de iniciação para a longa viagem sentimental que apenas inaugura com Tati, precisa atravessar primeiro a experiência radical da solidão. Aquela mulher triste e histérica a rir nas ladeiras de Montparnasse, e a transformar seu riso em choro, fica para ele como um retrato impreciso, mas inesquecível, dessa travessia. Agora, o poeta parece estar pronto para se entregar a sua primeira musa.
Pouco tempo depois, Tati sai de São Paulo meio fugida e desembarca na Inglaterra. Para evitar suspeitas, ela se instala em Londres, e não em Oxford, num minúsculo estúdio localizado no terceiro andar de um casarão do bairro de Chelsea. Vinicius passa seus fins de semana na capital e Tati, nos outros dias, dá escapadas até Oxford para se encontrar com ele. Para vê-la, o poeta foge de seu quarto de estudante saltando da janela até o telhado e dali improvisando canos e adornos da parede como degraus, o que fortalece a aura heróica e romântica que envolve o casamento. Foge duas ou três noites por semana para vê-la. Sai às pressas pelas vielas de Oxford, escolhendo as mais estreitas, em que os carros não transitam e em que, portanto, a audácia de seus perseguidores - pois acha sempre que há um batalhão de inspetores raivosos à sua caça - tem mais chance de fracassar. As portas da universidade se fecham, com tranca automática, pontualmente à meia-noite. Reabrem às sete da manhã. Durante o dia, os alunos têm ampla liberdade de ir e vir. Sempre que volta de Londres, Vinicius é obrigado a esperar o dia amanhecer para poder entrar "normalmente" em seu abrigo.
Poucas vezes sai sozinho. Numa delas, assiste a um concerto de Serghei Rachmaninoff, o compositor russo que morreria em 1943, e volta transtornado com o romantismo que escorre de suas composições. Rachmaninoff será, por toda a vida, um de seus compositores preferidos. No mais, lê e escreve. As noites passadas no quarto de Tati em Chelsea o levarão a escrever a magnífica “A última elegia", desfecho de uma série iniciada com "Elegia quase uma ode", fechando seu quarto livro, Cinco elegias, obra de transição entre a fase metafísica e a poesia do cotidiano publicada pela Pongetti em 1943. O poema, refletindo com precisão a alma dividida de seu autor, mistura versos em português e em inglês, guarda pastiches sofisticados de William Shakespeare e toma-se célebre pelos famosos versos que retratam o cenário opressivo de suas escaladas noturnas em busca do amor, dados em suas Cinco elegias.
Afora essas escapadas cinematográficas, Vinicius vive em Oxford uma fase de silêncio e reclusão. O Magdalen College está instalado num prédio e alma gótica, e o quarto do poeta tem uma atmosfera ameaçadora. Para conter a angústia, ele atravessa as noites copiando, ou recriando em português, muitos dos 154 sonetos de amor e de auto-análise que William Shakespeare publicou em 1609, no rastro dos ensinamentos de Petrarca. "Não me sinto nada bem no meio daqueles fantasmas todos", reclama constantemente com Tati. "Só Shakespeare me acalma.” A companhia de William Shakespeare termina sendo uma peça decisiva na formação do poeta, em particular, do sonetista. O soneto se torna, logo, a viga mestra sobre a qual se faz, em definitivo, poeta. Muitos anos depois, recordando esses exercícios decisivos praticados no espaço claustrofóbico do soneto, ele dirá: "O soneto é uma prisão sem barreiras, sem grades. Só dentro da prisão que ele encerra se pode atingir a liberdade maior”. Aprende que, para alçar vôo com os versos, precisa do constrangimento imposto pelo rigor. A liberdade máxima só se atinge quando lidamos com limites férreos. Em Oxford, produz compulsivamente. Ritmo veloz que manterá quando voltar ao Brasil e que só estancará no momento em que, em 1946, alçado ao posto de vice-cônsul em Los Angeles, partir com a família para longa temporada em Hollywood, onde será seduzido em definitivo pelo cinema e pelo jazz.
Há poemas menos inspirados mas que trazem registros esparsos de sua vida em Oxford, como “A espantosa ode a são Francisco de Assis”, imensa charada de 138 versos, só publicada depois de sua morte, que guarda confissões assim: "Quatro livros escrevi - e sou tão moço\ e não compreendo cde mim/ Senão que sou cruel com a mulher e que minha angústia não tem fim”. Nesse poema de tom queixoso, Vinicíus mistura o português com o inglês, e usa a língua inglesa para emprestar mais veracidade às paisagens que pinta de sua vida como estudante na Inglaterra. Surgem, então, retratos esparsos, mas curiosos: "Just now I have been in a bleary party in Magdallen’s College!/ And there was an armenian and a japonese and all the/ Good inocent people, drinking some liquor in their rooms/ And I was a bloody phanton between them, so help me God!”, diz, numa tentativa de registrar sua solidão.
Faz grande esforço, em boa parte frustrado, para transpor para o papel o cenário de seu exílio. Um “Soneto a Oxford”, inacabado, começa assim: "Oh Oxford, prende o sol em tuas pontas/ Góticas; dormem divinas harmonias/ Em tuas torres puras e sombrias/ E em teus jardins de grandes harmonias! Em tuas torres puras e sombrias/ E em teus jardins de grandes flores tontas/ O eterno farfalhar de Christ Church Meadows/ E as mesmas águas trêmulas do Ices/ Enchem meu coração da antiga fél/ Dos bardos..." - mas o poeta não consegue ir adiante. O “Soneto de Oxford”, que será incluído no Livro de sonetos (lançado pela Livros de Portugal quase vinte anos depois, em 1957), mescla o magnetismo da cidade que o abriga com a paixão por Tati. Escreve o “Sonetinho a Portinari”, as “Duas canções de silêncio” e conclui a “Elegia desesperada”, iniciada um ano antes no silêncio de Itaipava.
E deixa, insatisfeito, muitos outros poemas sem nome pelo caminho. Versos que jamais publicará. Eles guardam, no entanto, parte importante das impressões que agitaram Vinicius de Moraes em sua temporada inglesa. Servem, aqui, como resíduos bastante luminosos de um tempo que ficou, quase todo, obscuro. Num deles ("Deram-me fogo ao gesto terno...") surgem recordaçges apaziguantes do Brasil: “E ao sol das doze em Ouro Preto/ A minha jovem normalista/ De pele branca e trança preta/ Sumiu de minha vista”. No nevoento mês de novembro, ainda mais entristecido, escreve um soneto, e sem título, que guarda - sem nomeá-lo - o gosto de um amor:
Quando me ergui ela dormia, nua
E sorriu, em seu sono desmaiada
Tinha a face longínqua e iluminada
E alto, seu sexo sugava a Lua.
Toquei-a, ela fremiu, gemeu, na sua
Doce fala, e bateu a mão alçada
No ar, e foi deixá-la de guardada
Sob a nádega fria, forte e crua
Tão louca a minha amiga, linda e louca
Minha amiga, em seu branco devaneio
De mim, eu de amor pouco e vida pouca
Mas que tinha deixado sem receio
Um segredo de carne em sua boca
E uma gota de leite no seu seio.
Em dezembro, rascunha um poema em duas línguas, que inicia assim: “I need a poet/ To sing me a show/ Minha luz ficou aberta/ Minha cama ficou feita/ Minha alma ficou deserta/ Minha carne insatisfeita”. Expressa nele não só sua solidão, mas o medo que sente de, nela perdido, perder-se a si mesmo. A tristeza diante da alegria compulsiva do Natal o leva a escrever, dias depois, um verso assim: “Teu nome é Mary? – Merry Christmas”, aparece ao pé de um manuscrito em grande parte incompreensível. A solidão se transmuta em morbidez. Com o espírito abatido, e tomado pelo cenário gótico que o cerca, rascunha um poema sofrível que descreve algo assim: “E um grande túmulo veio/ Se desvendando no mar/ Boiava ao sa bor das ondas/ Que o não queriam tragar/ Tinha uma laje e uma lápide/ Com o nome de uma mulher/ Mas de quem era esse nome/ Nunca o pudera”. Mais que poema, ele se parece com o relato de um pesadelo em que a distância de Tati se confunde com a morte. Vinicius se ampara na poesia, como numa muleta, e isso nem sempre resulta em bons poemas.
No balanço geral, apesar dos tropeços e dos muitos versos que deveria ter queimado, a temporada na Inglaterra é muito positiva. Cabe lembrar que é em Londres, onde Tati se abriga no bairro de Chelsea, que ele escreve ua magnífica “A última elegia”, além de um soneto da qualidade do “Soneto de Londres”. Oxford é o berço de alguns de seus mais belos sonetos, entre eles os “Quatro sonetos de meditação”, o “Soneto do maior amor”, o “Soneto de véspera”, o “Soneto de agosto” e o “Soneto de Carnaval”. A temporada inglesa, iniciada como um acidente benigno tramado pelo destino, se encerrará, do mesmo modo, subitamente. Só que, dessa vez, às expensas de um desastre.
In Vinicius de Moraes: o poeta da paixão, biografia escrita por José Castello
O desastre mencionado por Castello é a eclosão da Segunda Grande Mundial, quando Vinicius estava de férias em Paris.